Uma história de memória viva
É difícil determinar com precisão o número de judeus que entraram no Brasil, já que as estatísticas oficiais registram nacionalidade e não religião. Ainda assim, é possível identificar algumas grandes correntes migratórias que ajudam a compreender a formação da comunidade judaica no país — e, em particular, no Rio de Janeiro.
A trajetória da imigração
Do século XIX ao início do século XX
No século XIX, destacou-se a imigração de judeus marroquinos para a região Amazônica, intensificada pelo ciclo da borracha. Vindos de cidades como Tânger, Tetuã, Rabat e Fez, fugiam da pobreza, da instabilidade política e da intolerância religiosa. Estabeleceram-se sobretudo no Pará e no Amazonas, mas parte desses imigrantes, ou de seus descendentes, acabou se deslocando posteriormente para outras cidades, incluindo o Rio de Janeiro, especialmente após a crise da borracha no início do século XX.
Ainda no século XIX, após a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871), judeus oriundos da Alsácia-Lorena também emigraram e alguns se estabeleceram no Rio de Janeiro, compondo um dos primeiros núcleos da presença judaica na cidade.
No início do século XX, começou a chegada de judeus oriundos do Leste Europeu — especialmente da Lituânia, Rússia e Bessarábia (atual Moldávia). Esse movimento ocorreu no mesmo contexto em que, no sul do Brasil, eram criadas as colônias agrícolas da Jewish Colonization Association, como Philippson e Quatro Irmãos, voltadas à fixação de imigrantes em áreas rurais. No Rio de Janeiro, porém, a maioria desses imigrantes se estabeleceu em ambiente urbano. Nesse período, esse mesmo grupo demográfico tornou-se o núcleo da comunidade judaica de Niterói, formada principalmente por comerciantes, concentrados em Icaraí.
Também no início do século XX, chegaram imigrantes judeus oriundos da Síria e do Líbano. Assim como outros grupos da região, enfrentavam perseguições étnicas e religiosas, além de um serviço militar considerado longo e abusivo, o que impulsionou sua saída.
Entre as duas guerras e os anos 1950
Após a Primeira Guerra Mundial, o Brasil passou a ser visto como um país de oportunidades, com economia em desenvolvimento, atraindo novos contingentes de imigrantes. Nos anos 1920, em função da queda do Império Otomano, intensificou-se a chegada de judeus provenientes do Líbano, Síria, Grécia, Turquia e Ilha de Rodes.
Em meados da década de 1920, com a adoção de políticas restritivas à imigração pelos Estados Unidos, o Brasil tornou-se um destino ainda mais acessível. Foi no período entre guerras que se concentrou a maior parte da imigração judaica para o país, com destaque para os judeus do Leste Europeu — cerca de metade deles de origem polonesa. Com a ascensão do nazismo, também chegaram ao Brasil judeus provenientes da Alemanha, Áustria, Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia e Polônia, todos impactados pela expansão do nazismo na Europa.
Na década de 1950, novas ondas de imigração vieram do Egito, Síria, Líbano, Marrocos e Argélia, motivadas pelas tensões no Oriente Médio, especialmente após a criação do Estado de Israel em 1948 e a crise de Suez em 1956. Nesse contexto, chegou ao Rio de Janeiro a última grande leva de imigrantes judeus, com destaque para aqueles vindos do Egito. Em menor escala, judeus da Hungria também se estabeleceram no Brasil nesse período, igualmente afetados por instabilidade política e perseguições.
O Rio como porto de entrada
Foi sobretudo no Rio de Janeiro — então capital do país e principal porto de entrada — que muitos desses imigrantes encontraram apoio inicial. A cidade concentrou uma rede de assistência ao recém-chegado, com instituições como a Jewish Colonization Association (ICA), o American Joint Distribution Committee (JOINT) e o Hebrew Immigration Aid Society (HIAS), além da Sociedade Beneficente Israelita de Amparo aos Imigrantes (Relief), que oferecia alojamento, ajuda financeira e apoio na regularização de documentos.
Bairros e vida comunitária
No centro da cidade, especialmente na região da Rua da Alfândega e adjacências, formou-se um espaço de forte identidade cultural, conhecido como “Pequena Turquia”. Ali conviviam imigrantes sírios e libaneses, tanto cristãos como de origem judaica, além de armênios, gregos, espanhóis e portugueses que mantinham hábitos e costumes de origem, com comércio de especiarias, padarias, restaurantes e espaços de convivência. Esse núcleo daria origem ao que mais tarde se consolidaria como o SAARA, importante polo comercial da cidade.
Os judeus asquenazitas se instalaram principalmente na região central — com destaque para a Praça Onze — e em bairros da Zona Norte, como Méier, Madureira, Engenho Novo e Cascadura. A proximidade favoreceu a formação de núcleos de convivência e a preservação de tradições culturais e religiosas. A cidade de Nilópolis também recebeu imigrantes de origem asquenazita, que formaram uma pequena comunidade. Ainda assim, conseguiram estruturar uma vida comunitária organizada, com sinagoga, escola judaica e associações comunitárias.
Com apoio nessa estrutura comunitária, muitos recém-chegados atuaram no comércio. Uma prática comum era a dos vendedores a crédito (prestamistas) — conhecidos no idioma ídiche como clienteltchikes — que pegavam mercadorias em consignação com lojistas já estabelecidos e as vendiam de porta em porta. Com o tempo, ao acumularem recursos, buscavam abrir seus próprios negócios e adquirir moradia.
Paralelamente, consolidou-se uma vida comunitária organizada, com sinagogas, escolas, associações e instituições de assistência. Ao longo do tempo, as novas gerações passaram a ingressar em universidades e profissões liberais, integrando-se à sociedade brasileira.
Uma comunidade plural
Apesar das diferentes origens — asquenazitas da Europa Oriental, sefaraditas do Norte da África e do Oriente Médio —, a comunidade judaica do Rio de Janeiro formou-se a partir dessa diversidade de origens, construindo ao longo do século XX uma presença marcante na vida econômica, cultural e social da cidade.
Retratos de uma comunidade
Preservar é um ato coletivo.
Associe-se ao Museu Judaico e ajude a manter viva a memória da comunidade judaica do Rio de Janeiro para as próximas gerações.